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NÃO PERTUBEM O MEU TRABALHO (I)

 

 

O empreendimento ao qual hoje me dedico inteiramente, de corpo e alma, é do pleno conhecimento dos fiéis, e, recentemente, parece aumentar o número de indivíduos que o compreendem de maneira razoável, mesmo nos meios intelectuais — fato que nos deixa felizes. Porém, como ainda há pessoas enganadas a seu respeito, desejo escrever um breve esclarecimento dirigido a elas. Naturalmente, por elas também ignorarem a realidade desta Igreja, são desnorteadas por boatos ou notícias falsas veiculadas pelos meios de comunicação. Entre tal tipo de gente, existem ateus empedernidos, que, de nascença, detestam religiões. E, embora pareça mentira, há mesmo quem, talvez, por identificar-se com o Mal, se sinta irritado conosco, uma vez que a religião prega a prática do Bem. Contudo, excluindo-se os comunistas, não haverá uma pessoa sequer que seja contrária à melhoria do Japão — a mãe pátria.

O objetivo deste texto que agora passo a escrever reside, pois, essencialmente, em tópicos de áreas compreensíveis mesmo aos leigos, sem tocar em qualquer assunto religioso, como Deus ou Fé. Quero tratar dos protótipos do Paraíso Terrestre que atualmente estou construindo em Hakone e Atami e, como o primeiro é de escala menor, escreverei sobre o segundo.

Os meus planos, desde o início, são de criar uma obra-prima de arte sem igual no mundo, conjugando as belezas natural e artificial. Nesse sentido, cito, em primeiro lugar, a opinião vigente de que o nosso Japão é o país mais rico da Terra em paisagens. De fato, apesar de eu nunca ter ido ao exterior, posso considerá-lo assim, sob vários pontos de vista. Como sempre falo, o Japão foi criado por Deus com o objetivo primeiro de servir de parque mundial, e, por felicidade, eu nasci neste país e nele moro atualmente. Tudo, portanto, veio perfeitamente a calhar. Então, procurei quais dos pontos do território japonês mais condiriam com os meus propósitos, descobrindo serem eles Hakone e Atami. Pesquisando estes dois lugares, encontrei, misteriosamente, os terrenos e as moradias ideais, adquirindo-os com facilidade. Posteriormente, finda a guerra, tudo correu a contento, e fui conseguindo, tanto em Hakone como em Atami, seguidamente, as áreas de terras necessárias. Hoje, em ambos os locais, elas atingem perto de 66 mil metros quadrados, o que pode ser considerado, em termos de extensão, suficiente. A porção de Hakone, porém, pelo relevo da região, em que há predominância de montanhas escarpadas e sobreposição de rochas, não é apropriada para uma estrutura de grandes proporções. Atami, ao contrário, não tem montanhas altas, e há bastantes áreas de solo terroso, facultando livremente a execução de um projeto em grande escala. E é isso que estou a erigir ali, atualmente.

Dentre todas as condições preenchidas pelo terreno de Atami, a primeira delas é o esplêndido panorama que oferece. São unânimes as opiniões de quem o vê, no sentido de que não há outro local assim no Japão inteiro, por mais que se procure. Além do mais, suas condições de acesso são ótimas, pois, como é do conhecimento geral, situa-se praticamente no ponto médio entre as Regiões Leste e Oeste, viabilizando o fácil trânsito de ambas as direções. Outras características são: o inverno ameno, a fartura de fontes termais, o verde que envolve a cadeia de montes circunvizinhos, o mar — como um espelho — da Baía de Sagami. À direita, a beleza curvilínea traçada ao longe por cinco cabos; à esquerda, são também interessantes as duas ou três ilhotas que se põem na ponta da Península de Maizuru. Nos dias ensolarados, delineia-se a linha da Península de Miura a flutuar no horizonte como num sonho; no fundo das brumas; o comprido traço que se estende como que a dormir é a Península de Boso: atrai-nos o olhar a estranha sinuosidade, em ziguezague, do famoso Monte Nokoguiri. Diante de nossas vistas, posta-se a Ilha Hatsushima, como a pedra de um jardim em miniatura; à sua direita avista-se, ainda, a Ilha Oshima, que, com seu contorno suave, parece negar as suas intensas atividades vulcânicas.

O ponto do qual se avista o magnífico panorama acima descrito é o Mirante Panorâmico, existente no centro do Zuiun-Kyo. Seja por sua localização, seja por sua altitude, este mirante é o mais adequado para se vislumbrar toda essa vista; quem quer que aqui se coloque louva o lugar, dizendo ter experimentado o Paraíso na própria Terra. Aqui é, sem dúvida, a Terra sagrada preparada por Deus quando da criação do Universo. O que seria este lugar senão a maior obra-prima de Deus? Ademais, por sua proximidade com a estação de trem, que permite daí vir em quinze minutos a pé ou cinco de carro, por meio de um caminho em suave aclive, seu acesso é extremamente fácil. Faz cinco anos exatos desde que comprei, em 1946, pela primeira vez, uma área. A partir de então, diariamente, de cinqüenta a cem pessoas vieram trabalhando ativamente até hoje, em conformidade com o projeto por mim traçado. Assim, a correção do relevo do terreno tem sua conclusão prevista para o final do corrente ano. Aí plantaremos, principalmente, dois mil pés de vinte diferentes variedades de azáleas, mil pés de cerejeiras, e quinhentos pés de ameixeiras, além de todo tipo que se puder reunir de arbustos floríferos, de modo que as flores abram, incessantemente, uma depois da outra. Será acertado chamá-lo de paraíso espetacular ou ideal.

Então, passar-se-á, finalmente, à edificação, em primeiro lugar, a partir da próxima primavera, do Templo Kyussei Kaikan. Será um prédio de um andar, com área de 2.640 metros quadrados , construído em um terreno de 4.290 metros quadrados . É natural que será em concreto armado, numa forma inteiramente inovadora, tendo por base o estilo que, hoje, domina o mundo arquitetônico — o Le Corbusier —, ao qual introduzirei minhas idéias. Concluído, decerto atrairá para si as atenções da sociedade, como construção religiosa de caráter mundial. Realmente, o estilo Le Corbusier combina de maneira perfeita com o senso da época, mas, carecendo de ar solene, está mais voltado para construções de uso prático, como prédios governamentais, de apartamentos e residências; parece não ser muito apropriado para construções religiosas. Entretanto, por não ver necessidade de fazer opção, nos dias de hoje, por prédios clássicos semelhantes a relíquias do passado, meu projeto, além de expressar bem o senso moderno, deverá contar com as respectivas inovações na decoração interna e demais elementos.

 

Eiko, nº 131— 21 de novembro de 1951

 

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