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DISCURSO INFORMAL EM HAKONE

 

 

O protótipo do Paraíso Terrestre, ora construído em Gora, Hakone, e freqüentemente citado por mim, tem sua primeira etapa em fase de conclusão. Quem o vê pela primeira vez, surpreende-se muito — ou melhor, mesmo quem o viu, já por várias vezes, espanta-se com sua vertiginosa transformação. O pavilhão Soun-kaku (atual Nikko-Den), que comporta cerca de mil pessoas, está quase concluído, e, no momento, estamos trabalhando na construção dos jardins e da casa de chá. Esta última é executada por um dos mais famosos carpinteiros japoneses, especialista nesse tipo de construções, Seibee Kimura, de 80 anos. Ele se comprometeu a construir, com todo o empenho, a obra-prima de sua carreira. Aqueles que viram o andamento da obra falam que, depois de pronta, ela será considerada a primeira desta região. Seu planejamento deu-se na primavera de 1946, logo depois do término da Segunda Grande Guerra, e a sua conclusão, finalmente, está prevista para o término do corrente, tendo levado quatro anos.

Pode haver quem me critique por construir algo tão soberbo, numa época em que o Japão passa por crises de fome e falta de moradias. O que eu tenho em mente, contudo, não é a ostentação, mas algo profundo e significativo, antevendo a chegada do dia de apresentar ao mundo a beleza peculiar da Arquitetura nipônica. Como é do conhecimento geral, os americanos demonstram acentuado interesse pela cerimônia japonesa do chá. No tocante a isso, na primavera de 1946, o general Smith e a cúpula de seu comando — que estão estabelecidos no Japão — quiseram apreciar a citada cerimônia. Por intermédio das autoridades da cidade de Atami, eu ofereci a sala de chá de Tozan-so (Solar da Montanha Oriental), minha residência na ocasião. Tal atitude também contribuiu em muito para o estímulo do meu espírito.

A casa de chá em questão abrange a área de 82,5 metros quadrados , e, como o senhor Seibee tem-se esmerado em seu trabalho, encontro-me desde já ansioso para vê-la pronta. Deverá ser uma coisa notável. Pela sua finalidade de apresentar a arte do caminho do chá para estrangeiros, um mestre afamado mostra-se animadíssimo com o projeto, vindo não somente orientando na construção propriamente dita, como também está se comprometendo a envidar esforços no sentido de internacionalizar a Cerimônia do Chá.

Quanto aos jardins, planejo criar uma beleza paisagística inteiramente inovadora. A disposição de cada árvore e de cada pedra está sendo determinada sob a minha orientação, já que considero que os jardins tradicionais não se adequam ao senso estético desta Nova Era. Originariamente, a jardinagem japonesa iniciou-se na era Ashikaga, atingindo a sua perfeição na era Toyotomi, graças ao Duque Enshu Kobori, sendo que, mesmo hoje, há vários exemplares desses jardins em Quioto. Na era Tokunaga, coexistiram dois estilos: o jardim feudal, remanescente até hoje em diversas localidades, e aquele adequado para casas de chá, concebido pelo grande mestre da Cerimônia do Chá, Senno Rikyu. Existe também o jardim ocidental, com seus canteiros geométricos, mas este não se adapta muito ao gosto moderno. Ademais, constitui fato inegável que, não obstante a construção arquitetônica ter passado por grandes progressos, o paisagismo muito pouco evoluiu.

Tomando em consideração os fatos acima, não sou especialista, todavia, talvez por revelação divina, ou uma espécie de sensibilidade espiritual, estou conduzindo as obras adiante. Pode-se dizer que tudo ocorre por milagres: por exemplo, consegui obter com facilidade o melhor local paisagístico de Hakone. Além da conformação topográfica do sítio ser ótima, sua vista excelente e seu passado histórico, existem nela inúmeras e gigantescas rochas de formatos exóticos, posicionadas de maneira adequada nos locais certos. As árvores, os arbustos, as plantas, as flores — todo o necessário encontra-se, nesse local, misteriosamente reunido. Não preciso me preocupar com coisa alguma. Assim, de maneira interessante, os jardins fazem parte das diretrizes nacionais que visam ao deleite dos olhos do visitante estrangeiro, de maneira a proporcionar o entendimento do que a Arte japonesa tem de bom.

Além do mais, é de se esperar também a elevação do sentimento japonês, demonstrando que somos um povo de índole pacífica e de cultura elevada. Concomitantemente, é preciso, o quanto antes, apagar a imagem de país agressivo e invasor. Outro objetivo meu é iluminar a alma humana por meio da Beleza. A Educação, a Religião e a Moral são, sem dúvida, necessárias para a formação do ser humano. Todavia, a experiência demonstra que somente com isso é difícil conseguir elevar espiritualmente o homem. Tenho, pois, planos de educar a alma humana pela Beleza, método jamais tentado por alguém.

 

Hikari, nº 17 — 9 de julho de 1949

 

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