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A AGRICULTURA NATURAL HIGIÊNICA E AGRADÁVEL NAS HORTAS CASEIRAS

 

 

No primeiro número da revista “Chijô Tengoku”, publiquei um minucioso artigo sobre a Agricultura Natural, dirigido aos agricultores profissionais; desta vez, enfocarei as hortas caseiras.

Como tenho publicado, na referida revista e no nosso jornal, os excelentes resultados obtidos pelos profissionais através desse novo método agrícola, acredito que os leitores tenham entendido, em parte, as suas vantagens. Posso afirmar que, no caso das hortas caseiras, feitas por amadores, a boa-nova da Agricultura Natural é uma grande alegria, como a luz que surge nas trevas. Nelas, até o presente, utilizava-se principalmente o estrume, cujo manuseio é insuportável sob vários aspectos, inclusive olfativo. Adotando-se o cultivo sem adubos, esse sofrimento desaparece, e o trabalho, por ser higiênico, torna-se agradável. Além disso, os resultados são bem melhores e o trabalho é menor, matando-se dois coelhos numa só cajadada. Vou enumerar as vantagens do método:

1 - Sendo utilizados apenas compostos naturais, não há o mal-estar causado pelo uso do estrume, e o trabalho é menor.

2 - As verduras obtidas são da melhor qualidade, e o seu sabor nem se compara ao das verduras tratadas com adubos.

3 - O volume e a quantidade dos produtos são maiores.

4 - O aparecimento de pragas reduz-se a uma pequena fração do que acontece no caso do emprego de adubos; portanto, não há necessidade de defensivos.

5 - Não existe problema de transmissão de larvas e parasitas.

Muitas outras vantagens poderiam ser citadas; relacionei apenas as principais.

Como nas hortas caseiras normalmente não se planta arroz nem trigo, mas quase sempre verduras e legumes, vou explicar a experiência que tive com estes.

As batatas são brancas, consistentes, têm um forte aroma, e até dão água na boca. O tamanho reduzido e a pequena quantidade apontados pelos amadores são conseqüência dos adubos; sem estes, as batatas são maiores e em maior quantidade. Os pés de milho possuem caule grosso, folhas bem verdes, e logo à primeira vista se percebe que são maiores que o normal. Suas espigas são mais grossas e compridas, com os grãos bem juntos e enfileirados, macios e doces; todos ficam admirados com o seu paladar. Os nabos são brancos, consistentes, de textura fina e ótimo sabor, apresentando comprimento e grossura maiores que os nabos cultivados com adubos. A aspereza e porosidade de muitos nabos são provocados pelos adubos. As verduras como a acelga, o espinafre e o repolho têm excelente aroma, são volumosos, macios e apetitosos. No final do ano passado, um amador trouxe-me três acelgas que pesavam 5,6 kg cada uma. Eu nunca tinha visto acelga daquele tamanho. As leguminosas apresentam bons resultados, principalmente a soja, que é baixa, com folhas menores, mas colhe-se o dobro. As beringelas apresentam boa coloração, casca macia e forte aroma; não só pela estética como pelo paladar, ninguém que já as tenha provado tem disposição para comer as que são tratadas com adubos. A cebola, a cebolinha, o tomate, a abóbora e o pepino são de ótima qualidade; em especial a abóbora é muito consistente com sabor adocicado, inigualável. As batatas-doces são enormes; se demorarmos a arrancá-las, atingem proporções nunca vistas.

Quanto às árvores frutíferas, também produzem frutos muito saborosos, principalmente as frutas cítricas, o caqui, o pêssego, etc.

Explicarei agora o princípio e a utilização dos compostos naturais.

O necessário para a Agricultura Natural são os compostos naturais, que podem ser de dois tipos: o de capim e o de folhas de árvores. O primeiro é próprio para ser misturado à terra, e o segundo é indicado para fazer um leito abaixo do solo.

A diferença entre a agricultura tradicional e a nossa é que esta considera o solo como uma matéria profundamente misteriosa criada por Deus para o desenvolvimento de alimentos vegetais. Por conseguinte, ativar ao máximo a força do solo significa alcançar o objetivo original com que ele foi criado. Desconhecendo este princípio, os antigos passaram, não se sabe quando e baseados numa interpretação errônea, a usar adubos, prática cujo resultado é a diminuição da produtividade e a morte do solo. Na tentativa de cobrir esse enfraquecimento, utilizam-se adubos em quantidade cada vez maior, o que leva à intoxicação das plantas. Dizem que o solo japonês empobreceu, e isso pode ser atribuído aos adubos; os adubos químicos modernos, principalmente, aceleram o processo de empobrecimento do solo. Uma boa prova disso é que há uma melhora temporária quando lhe acrescentam terras de outros lugares, em virtude da queda de produção. Os agricultores interpretam que esta caiu porque os cultivos subseqüentes por longos anos esgotaram os nutrientes da terra. Acham, portanto, que as terras virgens conseguirão supri-la. Isso é um grave erro, pois na verdade o solo perdeu sua força devido à utilização de adubos e com o acréscimo de terra isenta de tóxicos, ele se recupera em parte.

Por outro lado, os compostos naturais têm por finalidade impedir o endurecimento do solo e também aquecê-lo. O fundamental, para ativar o crescimento das plantas, é promover o desenvolvimento da raiz, sendo que o primeiro passo nesse sentido consiste em não deixar o solo endurecer; daí a necessidade de se misturar bem, a ele, o composto natural. Para incentivar o crescimento dos pêlos radiculares, deve-se utilizar o composto natural à base de capim, pois as fibras deste são macias e não atrapalham o crescimento. As fibras das folhas de árvores, no entanto, são mais duras, e por isso não convém misturá-la ao solo. O melhor é utilizá-las para fazer um leito abaixo do solo, a fim de aquecê-lo. O ideal seria uma camada de uns 30 cm de terra misturada com composto à base de capim e, abaixo dela, um leito da mesma espessura, à base de folhas de árvores.

No caso de verduras, leguminosas, etc., o processo descrito é conveniente, mas tratando-se de nabos, cenouras e similares, cujo objetivo é a raiz, deve-se dimensionar as camadas de maneira adequada, fazer montes de terra e plantá-los aí, para que suas raízes recebam bastante sol, pois assim o crescimento será excelente. Se a batata-doce, por exemplo, for plantada em montes de mais ou menos 60 cm , dispondo-se as mudas numa distância de 30 cm uma da outra, colher-se-ão batatas gigantes. Ouve-se dizer freqüentemente que o melhor é dispor os montes de terra em sentido norte-sul ou leste-oeste, de modo que as plantas recebam bastante energia solar; portanto, basta dispô-las observando as condições locais, levando em consideração a direção do vento. Quando este é muito forte, os caules se quebram; assim, é necessário plantar árvores em volta ou fazer cercas, a fim de diminuir a ação do vento.

Quanto mais limpo for mantido o solo, maior será a sua vitalidade. Portanto, a utilização de impurezas, como o estrume, traz resultados adversos. Devido ao desconhecimento desse fato, o trabalho não só tem sido infrutífero como contraproducente.

Os americanos não comem verduras produzidas no Japão, pois temem a presença de parasitas. No caso da Agricultura Natural, essa preocupação desaparece. Trata-se realmente de uma fabulosa revolução da agricultura, constituindo uma grande boa-nova dirigida aos nossos irmãos.

 

Jornal Eikô nº 3 — 30 de março de 1949

 

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